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ducentésimo vigésimo sexto dia - branco (PARTE I)
"Há mais mistérios entre o céu e a terra do que sonha nossa filosofia", já dizia mais ou menos assim Shakespeare em uma de suas peças. E eu, que estive sempre entre o acreditar e o não-acreditar, sempre em dúvida quanto às manifestações religiosas e o poder de Deus, enfim, tudo aquilo que muitos acreditam fervorosamente e outros chamam de delírios, histeria ou simplesmente charlatanismo, venho vez em quando me deparando com situações em que tenho simplesmente que aceitar os mistérios como parte da realidade. São situações que não têm explicação além do mistério. Ou melhor, até podem ter uma explicação além do mistério, mas com uma boa dose de paranóia.
A primeira dessas situações foi no começo de 2004, quando eu já morava aqui com Artur. Recebi um telefonema de minha mãe à 1 da madrugada, dizendo que meu pai estava com a mão direita muito inchada e que ela achava que ele devia procurar a minha dermatologista, que tá sempre com o consultório lotado, mas que tem um carinho grande por mim e sempre dá um jeito de me atender.
Ás seis e meia da manhã, eu liguei pra minha derma (é a hora em que ela começa a atender todos os dias) e ela me disse pra levar meu pai lá, mas tinha que ser pela manhã, pois ela não ia trabalhar naquela tarde. Ora, meus pais moram em outra cidade. Eu achei que seria mais seguro que eles dormissem um pouco mais pra meu pai não pegar a estrada com sono. E fui lá pro consultório, sozinho, pra guardar o lugar deles, já que o babado é por ordem de chegada.
O consultório é num centro médico com salas pequenas, e eles aproveitam o hall comum aos consultórios pra botarem sofás e cadeiras pros pacientes de todos os médicos do andar. Como dentro do consultório dela já não havia cadeiras, fiquei nessa parte comum a todos, lendo, já que a espera seria grande. Lia um livro chamado MEDO DA VIDA (tinha estado lá no consultório poucos dias antes e já tinha lido todas as CARAS disponíveis). Aí, uma senhora, que ia fazer uma endoscopia no gastro, olhou pra mim e perguntou, se referindo ao livro: "'Medo' de quê?"
- "Medo da vida".
- De quem é?
- Alexander Lowen.
- Ah! Um que trabalhou com Reich?
- Esse mesmo.
Ela saiu da cadeira dela e veio se sentar do meu lado. Puxou o livro da minha mão e disse: "Deixa eu ver a orelha". Mas o livro não tinha orelha. Ela folheou, deu uma olhada, me devolveu e me disse:
- Vou fazer um estudo numerológico pra você.
E se levantou pra pedir papel e caneta pra atendente do gastro. E eu pensando: mais uma maluca em minha vida.
Ela voltou, pediu meu nome completo, fez trocentos cálculos e começou a me explicar os resultados, interpretando os números que vinham do meu nome e da minha data de nascimento. Até aí, tudo bem. Até que, num momento, ela parou, fez uma cara de quem tava sentindo algum incômodo, apontou pro meu sobrenome do meio e disse:
- Esse Oliveira... Oliveira é de seu pai ou de sua mãe?
- Minha mãe.
- Quem, na família de sua mãe tá doente?
Na minha cabeça, passei em revista todos os tios. Muitos alcoólatras, quase todos malandros, mas ninguém realmente doente:
- Ninguém.
- Não... Tem alguém... - Ela pensou um pouco: - Qual a idade de sua avó?
- Vó deve ter mais de 80, mas ela tá bem.
- Não, não é sua avó...
Ela continuava perturbada. De repente, ela pareceu ter uma iluminação:
- Você não tem uma tia?
Na mesma hora, me lembrei de minha tia, que estava... muito doente. Não sei por que, na hora em que ela me perguntou sobre a família, eu simplesmente não me lembrei de minha tia. Tive que dar o braço a torcer:
- Tenho! E ela tá muito doente.
A senhora me deu um tapinha na testa e disse:
- Eu não falei?
Eu já comecei a achar que a velha podia ser maluca, mas que tinha realmente algo a mais. Mas ainda pensava: ela perguntou tudo, fica fácil chegar a conclusões a partir de perguntas. Só que ela continuou:
- Pois é, sua tia está bem doente e sua avó tá muito preocupada com ela.
Pensei: dedução lógica. Mas a velhinha continuou, como se estivesse dizendo a coisa mais normal do mundo:
- E seu avô, que já morreu, também está muito preocupado com a filha.
Peraí? Como é que essa mulher sabia que meu avô já tinha morrido? Eu tava no Big Brother e não sabia? Tavam filmando a minha vida?
Aquela foi a primeira vez em que eu realmente tive que acreditar na sensitividade de uma pessoa. Não tinha como duvidar. Ela simplesmente falou de meu avô e acrescentou a oração apositiva: que já morreu. E eu nunca tinha visto aquela mulher na minha vida. Minha mãe chegou junto com meu pai, logo depois, e ela também não conhecia a mulher. Não era alguém que sabia da minha vida. Era somente uma mulher que eu encontrei por acaso, indo a uma consulta imprevista, marcada de última hora. Como, então, ela poderia saber de minha tia doente, de meu avô morto?
Só penso em duas explicações. A primeira: ela é sensitiva, médium, o que for. Ela captou isso através de algum sentido que desconheço. É a explicação pelo mistério.
E há a explicação conspiratória paranóica: alguém, que me conhecia e conhecia bem a minha família, pra me pregar uma peça, ou com alguma outra intenção maligna (me enlouquecer, talvez), contratou essa velha pra fingir que era numeróloga e vidente. Esse alguém misterioso pôs uma escuta em meu telefone, descobriu que eu iria pra dermatologista (a dermatologista, como não sabia da existência de minha tia, nem que meu avô tinha morrido, estava fora da conspiração), e aproveitou pra executar seu plano.
E o que seria loucura? Aceitar a primeira ou a segunda explicação?
Isso tudo é um prólogo pro que me aconteceu esta noite.
continua no post abaixo
Escrito por Claudio às 04h23
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ducentésimo vigésimo sexto dia - branco (PARTE II)
continuação do post acima
Eu falei com minha avó.
Não, eu não liguei pra Feira de Santa e falei com minha avó Zetinha, mãe de minha mãe. Falei com minha avó Branca, minha avó paterna, aquela que, alguns posts abaixo - no ducentésimo vigésimo primeiro dia -, eu disse que tinha morrido.
Sim, alguns amigos vão dizer que é uma manifestação histérica, mas e daí? Eu estava numa reunião espírita - e eu não sou espírita -, e um amigo teve uma manifestação, que eu traduzi como sendo minha avó. Foi uma experiência bonita, foi uma sensação muito boa, nada perturbadora, pois foi uma manifestação de muito afeto. Fiquei surpreso, muito surpreso. Surpreso pela manifestação dela para mim, surpreso pela demonstração de carinho. E surpreso comigo, por aceitar aquela manifestação como de minha avó. Não havia nada a fazer além de aceitar. Foi muito bonito.
E essa manifestação parece preparada desde domingo.
Domingo teve um jantar comemorativo de dois anos de VIXE MARIA!, só com a equipe e um ou dois convidados de cada pessoa. Fui com Artur e ficamos na mesma mesa com Cacilda (outra autora da peça) e o marido, o músico Ivan Huol. Em determinado momento, a conversa era sobre sobrenomes, e chegamos a mulheres artistas que mantiveram o sobrenome do marido mesmo depois de se separarem porque já eram conhecidas com aquele nome.
Quando se fala nesse assunto, eu geralmente cito Tina Turner. Mas, no jantar, Ivan se adiantou e, antes de eu poder falar de Tina, citou Astrud Gilberto, que foi casada com João Gilberto, e manteve o nome dele mesmo depois da separação porque já estava famosa com aquele sobrenome. Como Ivan falou de Astrud, eu tive que dizer que ela é minha prima. Sim, ela é minha prima - distante, mas prima. Eu não sabia exatamente como se dava o parentesco, mas sabia que ela era prima de meu pai e que os dois tinham tido um flerte na juventude e que, por isso, minha mãe odeia Astrud com todas as suas forças.
Geralmente, eu conto essa história, as pessoas acham graça dos ciúmes de minha mãe e o assunto só não morre aí porque tem sempre alguém que não sabe que é Astrud e eu tenho que explicar que é uma cantora, que era casada com o João, que gravou "Garota de Ipanema" em inglês no disco de João e Stan Getz e que essa foi a gravação que estourou nos E.U.A., onde ela acabou fazendo carreira. (Depois da novela LAÇOS DE FAMÍLIA, ficou mais fácil porque a gravação de "Corcovado" - da abertura da novela - é com ela, Stan e João, do mesmo álbum de "Garota...".)
Mas, no jantar, quando eu falei que Astrud era minha prima, Ivan arregalou os olhos e disse:
- Ela é minha prima também!
Aí, eu falei:
- Na verdade, ela é prima de meu pai.
- Qual a família de seu pai?
- Neves. - Eu sabia que Astrud era da família de minha avó.
- De que cidade?
- Caetité.
- Eu também sou dos Neves de Caetité. Minha avó até escreveu uma livro sobre a família: O CLÃ DOS NEVES.
Eu sabia desse livro. Meu pai tinha esse livro. Ele ganhou um livro desses numa viagem a Caetité em que viram vários parentes, inclusive a autora do livro, a avó de Ivan.
Liguei pra minha mãe e fiquei sabendo que a mãe de Astrud era prima de minha avó paterna. Ivan me disse que a avó materna dele era prima da mãe de Astrud. Descobri então que a minha avó paterna era prima da avó materna de Ivan. Ou seja, somos primos.
Minha mãe, que adora essas histórias de família, ficou toda empolgada e me disse que ia procurar as fotos deles em Caetité, na qual estavam a dona Marieta (a avó de Ivan) e um dos netos. (Minha mãe já tava querendo saber se o neto de Marieta que ela conheceu era Ivan.) Nesta segunda, meu pai veio a Salvador e aproveitou pra me trazer justamente as fotos e o livro de dona Marieta (o nome completo é CAETITÉ E O CLÃ DOS NEVES). E me disse que, pela primeira vez, minha mãe falou em Astrud sem brigar com ele.
(Em tempo, ele me esclareceu que ele e Astrud não tiveram nada. Os dois eram pirralhos, quando se conheceram. Ela tinha 13. Meu tio e alguns primos foi que ficaram caídos com a irmã dela Edda, que era muito bonita. Um dia, Edda disse que não gostava de homem com bigode. Cinco minutos depois, um dos rapazes - que adorava ostentar um bigodinho - apareceu na frente dos outros com espuma no rosto...)
continua no post abaixo
Escrito por Claudio às 04h22
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ducentésimo vigésimo sexto dia - branco (PARTE III)
continuação do post acima
Vi as fotos e constatei que o neto fotografado não é Ivan.
Fui lendo trechos do livro, à procura, obviamente, de citações aos membros da família que eu conheço. O livro é realmente uma pequena história dos Neves, desde a chegada de três irmãos Neves portugueses ao Brasil. Outras famílias se misturam, pra chegarem, obviamente, na família da dona Marieta. (Meu avô paterno mesmo, nem é citado, bem como meu pai e meus tios). Mas foi interessante acompanhar um pouco da história da família, que se misturava sempre, pois havia muitos, mas muitos mesmo, casamentos entre primos. E muitos primos com o mesmo nome. Há vários Álvaros, Marcelinos, Joões, Dulcinas, Luizas... Huol, então, há vários! Eu nunca tinha ouvido falar nesse prenome até conhecer Ivan! A vó Dulcina, mãe de minha avó, era neta de outra Dulcina. A tia Nena, irmã de vó Branca, era Regina, assim como a irmã de meu pai. Ou seja, o livro é confuso porque a gente se perde em meio a tanta gente de mesmo nome.
Mas foi interessante ver como a família se preocupava com a educação. Muitos professores e professoras na família (minha avó, inclusive).
E muito espíritas. Um dos Neves foi o fundador do primeiro centro espírita de Caetité, em 1905. Quando os irmãos de minha avó se mudaram de Caetité para Belo Horizonte, eles já eram espíritas. Eu achava que o espiritismo, na família de meu pai, era coisa recente, da geração dele (tem um dos primos dele que é presidente de um centro em BH), mas vi que a coisa é bem antiga.
Na família de minha mãe já há uma certa caboclada. Tem uma tia dela que baixa caboclo, já há uma aproximação maior com a Umbanda. Mas, como a Umbanda tem elementos do espiritismo kardecista, cresci ouvindo falar em livros e teorias espíritas. Mas nunca fui de freqüentar nenhum centro até começar a namorar com Artur.
Passei a frequentar as sessões de desobsessão num momento em que tava tudo tão difícil de suportar em minha vida que eu precisava de um alento. Pra piorar, a velhinha numeróloga-vidente não queria me receber porque dizia que eu tava carregado. (Pelo menos, foi isso que meu ex me disse, na época, pois os dois pegaram amizade. Ele adora essas coisas, e eu fiquei tão impressionado com a velhinha que passei o telefone dela pra ele, e foi ele que me disse que ela tinha dito aquilo. Eu sempre fiquei na dúvida se ela havia mesmo dito aquilo ou se era uma jogada dele pra me desestabilizar).
Mas sempre achei que muito do que me diziam era influenciado pelo que sabiam e pensavam de mim. Que não era algo realmente "ditado" pelos espíritos ali, naquele momento. Freqüentava muito mais para receber o passe, pois acreditava que poderia haver realmente uma troca de energia dentro daquele espaço, independentemente de esta troca ser promovida por espíritos ou de ser simplesmente porque transmitimos e captamos energias e ondas sem sabermos. Sei que gosto de ambientes em que as pessoas estejam reunidas com um objetivo religioso. Não sou católico, mas há missas em que sinto a energia promovida pela fé circulando pelo espaço, e isto me faz com que me sinta bem.
Além das reuniões de desobsessão, quando ocorrem os passes, o pessoal da SEEB (o centro que Artur preside) também se reúne nas quartas para reuniões doutrinárias, nas quais nunca fui. Há também o Evangelho no Lar, que, pelo que um amigo me explicou, é um encontro familiar para ler e comentar sobre textos espíritas. Artur freqüenta sempre, todos os domingos, o evangelho da casa de Miréia, a maior amiga dele. E, vez em quando, eu vou com ele.
Há pouco mais de uns dois meses, eles foram orientados a promoverem evangelhos, em outra noite da semana, nas casas dos outros membros da SEEB. Nestes, eu nunca fui. Primeiro, porque estava no Rio. Mas, desde que estou aqui, houve dois em que não fui. Nesta segunda, seria na casa de Katherine, perto daqui de casa.
O normal seria que eu fosse ao cinema, ou ficasse em casa, vendo algo na tevê, ou no computador. Mas me deu muita vontade de ir lá. E eu fui.
continua no post abaixo
Escrito por Claudio às 04h15
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ducentésimo vigésimo sexto dia - branco (PARTE IV)
continuação do post acima
Nos evangelhos, geralmente, não há manifestações. Há só a leitura e comentários sobre textos. O texto dessa noite iniciava com uma citação à Bíblia em que Jesus agradece a Deus por ter revelado a verdade não aos sábios - que sabem tudo - mais aos simples. Algo por aí. Na verdade, era um texto sobre o acreditar. Aos sábios, os estudiosos, é dado desvendar os mistérios terrenos, as leis físicas, orgânicas. Mas o que não pode ser explicado, o mistério, é revelado a quem simplesmente acredita nessa força, sem precisar de provas.
Depois da leitura do texto, Artur começou a manifestar um espírito muito triste, pedindo ajuda, e Marcelo foi doutriná-lo. Depois, Miréia manifestou uma entidade que aparece sempre lá pelo SEEB e que passou a coordenar os passes. A partir daí, houve uma série de manifestações. Em outro momento, em que Artur mais uma vez manifestou esse espírito triste, que imaginei que tivesse a ver com a tia de Katherine, falecida ano passado. A entidade que se manifestava através de Miréia falava a Katherine coisas sobre a tia e a família de Katherine. Eram coisas que todos sabemos e fiquei pensando até que ponto aquilo era uma manifestação de um espírito ou uma manifestação do inconsciente da pessoa, um delírio histérico, como me diria aquele amigo. Cheguei a cochilar. Até que, vendo aquele espírito tristíssimo, pedindo ajuda mais uma vez, me deu vontade de chorar.
No começo, resisti. Mas, depois, achei que o melhor era deixar sair. E as lágrimas começaram a rolar, quentes, grossas, em meu rosto. Logo pararam.
Enquanto isso, a entidade com Miréia coordenava passes em um e outro, mas não mandava ninguém dar passe em mim. Eu não sabia o que fazer. Quase do meu lado, George manifestou um espírito revoltado, de mal com a vida - ou com a morte, sabe-se lá. Mais uma vez, Marcelo foi doutrinar o espírito e. mais uma vez, me veio a vontade de chorar. As lágrimas vieram mais fortes.
Rener dava um passe em Roberto, ao meu lado e, depois, passou a dar um passe em mim (finalmente!). Perguntou se poderia me tocar e eu disse que sim. Ele tocou em minhas costas e comecei a chorar ainda mais, de cabeça baixa. Eu queria aquele toque nas costas. Eu tinha acabado de tocar aquele ponto com minhas mãos.
Rener pediu ajuda a Artur e Artur também me aplicou um passe. Mas ele teve o bom senso de chamar outra pessoa, George, e disse: "Santo de casa não faz milagre". George, auxiliado por Rener, chegou perto de mim e houve a manifestação. Era uma voz fraca me dizendo que estava feliz de poder me ver, que gostava muito de mim. Mesmo sem entender direito porque aquela declaração, me deu vontade de segurar os braços de George e logo estávamos num abraço forte. E ela me dizia que não pudemos nos ver antes, mas que era muito bom podermos nos ver agora e ela poder dizer o quanto gostava de mim.
Foi aí que eu não tive dúvida de que era minha avó.
Eu nunca tive uma relação muito estreita com minha avó. Ela era sempre simpática comigo, mas vó era calma demais, calada demais, eu não conseguia me comunicar com ela, puxar papo mesmo. Sei que, para os outro netos, ela contava sempre histórias dela, da família, do "clã dos Neves". Mas eu não conseguia perguntar nada a ela. Porém, a despeito disto tudo, ela sempre me tratava com carinho. Nas minhas idas a Belo Horizonte, ela sempre se mostrava contente em me ver. E sempre fazia questão de me comprar um presente, e sempre preocupada e ser algo que me agradasse. Geralmente, eram livros. Ela sabia que eu gostava de ler. Um dos últimos era um livro de Stanislavski, que eu já deveria ter, mas que não tinha. Eu achei muito legal eles terem escolhido (ela teve a ajuda do tio Manuel pra isso, acredito) um livro que deveria estar na sessão de teatro, um livro daqueles fundamentais para um ator.
Sempre tive vontade de saber mais sobre essas histórias dela. Gosto de histórias antigas de famílias. Atiçam meu lado escritor. Mas nunca tivemos essa conversa.
Mas me lembro que fomos juntos, só eu e ela, ao cinema, vermos O HOMEM ELEFANTE.
No terceiro fim de semana de fevereiro, meus pais e meus irmãos foram a Belo Horizonte vê-la. Eu iria também, mas recebi a proposta da Record no fim de semana anterior e havia a urgência de preparar os capítulos logo, pois achava-se que a estréia seria ainda em março. E eu não fui.
Quando ela morreu, eu pensei: eu não fui. Acho que ela teria ficado contente de ver todos os netos lá. Mas sei que ela deve ter ficado contente de saber que eu não fui porque tava escrevendo uma novela. Ela não perdia as novelas. Lembro de uma vez em que eu estava vendo um programa de clipes (BODERLINE, com Madonna), e ela reclamou que queria ver a novela (era LIVRE PARA VOAR). Foi das poucas vezes que a vi irritada.
Ontem, quando eu fechava a janela deste quarto para sair de casa, eu me lembrei da minha primeira semana escrevendo a novela e que não fui a Belo Horizonte por causa disto. Pensei nisto por causa da perspectiva de voltar ao Rio nesta semana e não saber exatamente se poderei voltar logo. E pensei nisto, é claro, por tê-la visto nas fotos de Caetité que minha mãe mandou.
Mas, depois que saí de casa, não pensei mais nas fotos, no livro, em minha avó. Mas veio uma grande vontade de ir ao evangelho. E fui. E vivi essa experiência.
Como explicar essa manifestação?
Posso imaginar que George, por saber que minha avó morreu há pouco tempo, acabou se induzindo a uma manifestação em que representasse minha avó. (Mas por que agora e não na sessão de desobsessão passada?) Posso imaginar que a leitura do livro de dona Marieta e as fotos de minha avó me fizeram emanar uma energia que George captou e induziu-lhe a uma fantasia na qual ele representava minha avó.
Ou posso aceitar o "mistério", posso simplesmente acreditar que ERA minha avó.
Era minha avó pra dizer que me ama, era minha avó pra dizer que, apesar de ter faltado "aquela" conversa, havia carinho, havia amor, que eu sei que senti todas as vezes em que a visitei.
Foi bonito, foi forte, foi revelador. Posso ainda não saber em que acredito. Mas esta noite eu vivi o mistério. Vivi para crer. E, depois, nenhuma tristeza. Ela está bem, sabe que está bem, e fiquei feliz com ela.
Ela queria saber se todos aqui estavam bem. Eu disse que sim.
Escrito por Claudio às 04h06
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ducentésimo vigésimo quinto dia - se
Tenho estado em Salvador, preparando um local de trabalho. Tenho que ter dois locais preparados pra poder trabalhar, um aqui, outro no Rio. Sim, pode-se escrever em qualquer canto do planeta, mas há reuniões, e estas têm que ser no Rio. Daí, a previsão é mais tempo no Rio do que em Salvador. Mas vai que, durante todo o trabalho, dê pra vir por aqui durante a semana. Tenho que continuar a escrever, não dá pra parar só porque a saudade bateu. Mas também não preciso ficar mal lá no Rio só porque não tenho onde trabalhar aqui.
Um notebook não daria conta do recado? Talvez. Comprarei um. E vou ver o que fica melhor, se manter o computador de mesa aqui e lear o notebook pra lá, ou o contrário. E, a depender, talvez ter um computador de mesa por lá e outro aqui. Isto só não dá a mobilidade de escrever mesmo em qualquer canto - é preciso uma macro específica pra capítulos de novela e não dá pra escrever em qualquer computador.
Não aluguei o apartamento que queria. Não que eu desistisse, mas foi tanta complicação que o tempo me fez ver que não era necessário alugar um apartamento naquele momento. Começo a pensar num apart. Sim, é mais caro, mas não sei o quanto. Tenho que pesquisar e verificar se não vale mais a pena. Devo fazer isso logo. Parto para o Rio ainda nesta semana. Quando volto à Bahia? Não sei.
Enquanto isso, minha cabeça sofre com essas pequenas indefinições. Novamente, sofrendo no meu mundo interno. Em meu mundo interno, eu crio várias realidades paralelas, com as inúmeras possibilidades e todos os seus possíveis desdobramentos. E sofro com todos. Preciso aprender a me preocupar com o aqui e agora. Aqui e agora, tenho coisas a resolver em Salvador (como meu tratamento dentário, que está na metade) e coisas a resolver no Rio, pra poder ter meu lugar lá e tomar pé de todas as questões finaceiras com que terei que lidar a partir de agora. E tenho que parar de ficar projetando possibilidades, com seus exaustivos "SE"s.
Esses "SE"s me cansam.
Escrito por Claudio às 01h11
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ducentésimo vigésimo quarto dia - caraca!
Pra piorar, meu outro cartão (do qual sou dependente de minha mãe e, por isso, quase nunca uso, só em casos de urgência quando acontece alguma coisa com o meu mesmo, como foi o caso) chegou no limite e foi recusado neste sábado. Estou sem cartão até segunda-feira, pelo menos, quando o cartão de minha mãe será pago.
Tenho ainda um terceiro cartão de crédito, no qual sou dependente de meu pai, e que também não gosto de usar. Deixarei pra última opção. Por enquanto, estou usando o cartão de débito.
Escrito por Claudio às 00h44
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ducentésimo vigésimo terceiro dia - êxtase e agonia
Estou em Salvador e já comecei a resolver as coisas.
Ontem, enquanto não dava ainda pra resolver muitas coisas práticas, fiz uma das coisas que mais gosto de fazer e não dava pra fazer lá no Rio: ouvi música alta! Decididamente, quando estiver de vez no Rio, tenho que estar com meus discos e um bom aparelho de som.
Hoje descobri que bloquearam meu cartão de crédito. Eu tentei fazer umas compras e não aceitavam. Achei que tinha chegado no limite, já que gastei demais nesse último mês. Liguei hoje, achando quue era isso, e com a intenção de pagar logo pra liberar o cartão. E fui informado que o cartão havia sido bloqueado porque meu consumo estava estranho, pois eu tinha feito compras em Salvador, Rio de janeiro, São Paulo e Belo Horizonte, e isto poderia indicar que meu cartão tivesse sido clonado. Então, a moça me pediu pra confirmar algumas compras, muitas de passagens aéreas. Confirmei todas e fui informado que meu cartão chega em dez dias.
Questionei como é que eles bloqueiam meu cartão, baseados em que meu consumo está irregular, e não entram em contato comigo antes de fazerem isto. E a mulher me falou que eles me mandaram um telegrama.
Quer dizer, eles vêem que eu comprei várias passagens aéreas, o que, obviamente, indica viagens. Aí, eu passo a usar o cartão em cidades diferentes, que não é a minha, o que indica que eu estou efetivamente viajando. E aí, eles ficam na dúvida se sou eu mesmo quem está usando o cartão ou se é alguém clonando, e, ao invés de ligarem pra meu celular (sim, eles têm meu celular - em 2004, eu fiz uma compra grande e eles me ligaram pra confirmar se eu tinha feito mesmo a tal compra), eles me mandam um telegrama!!!!! Como é que a pessoa, em viagem, vai receber um telegrama?
Agora, eu fico sem cartão até Deus sabe quando, pois o cartão chega aqui em Salvador e é capaz de eu já estar no Rio. Que contratempo. Tô quase cancelando, só de raiva, apesar de saber que um cartão é sempre uma mão na roda e, em 9 anos, este é o meu primeiro contratempo com esse cartão. Espero que seja o último.
Escrito por Claudio às 18h51
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ducentésimo vigésimo segundo dia - adoro aeroportos
Vou amanhã pra Salvador. E isto não é uma mentira. Coisas a resolver por lá.
Escrito por Claudio às 18h52
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