Escrito por Claudio às 21h04
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ducentésimo qüiquagésimo sétimo dia - beleza
Dia cinza, mar branco.
Já perdeu a graça isso. Pleno novembro e o frio impera. Cadê a primavera?
Muito trabalho por aqui. Fazemos mesmo um capítulo por dia. Até que não seria tão pesado se eu escrevesse mais rápido. Às vezes demoro nov e horas pra escrever meio capítulo. Às vezes sai mais rápido e deu tempo de ir ao cinema, na semana passada, ver EU ME LEMBRO, de Edgard Navarro.
Fui com muita espectativa, afinal, Edgard fez o SUPER-OUTRO! Filme cult que vi na estréia em Salvador e que ficou gravado em minha memória até agora. Lembro bem de cenas como a de Bertrand cagando na manchete "O FIM DO MUNDO ESTÁ PRÓXIMO" de um Planeta Diário, ou ele se masturbando na frente de uma vitrine de tevê durante o Roletrando com Sílvio Santos, Inaldo dormindo e sendo acordado pelo mendigo que joga um tonel de lixo na portaria do prédio, e uma das frases que abriam as partes do filme: "Deus é grande, mas está mole".
Ver aquilo tudo, num média metragem, foi muito marcante pra mim. Eu tava começando a carreira artística. Lembro que fui ao cinema com Celso e saimos absolutamente passados com o filme. Edgard já era o diretor de uma montagem de DEUS de Woody Allen, que foi o primeiro espetáculo teatral baiano a que eu assisti. Com o SUPER-OUTRO, Edgard virou referência. Anos depois, o filme entra na letra de CINEMA NOVO de Gil e Caetano. Mas Edgard só voltou a lançar um filme agora.
Quando eu vi que tava passando o filme aqui na Barra, tratei de escrever rapidinho minhas cenas pra dar tempo de pegar a sessão das nove. Chamei a Ana pra ver comigo, mas ela me disse que a analista dela tinha achado horrível, que tinha saído no meio e disse pra ela ir ver qualquer coisa menos EU ME LEMBRO. Fui sozinho.
E me emocionei muito com o filme. Ele tem falhas grandes, tem um elenco exagerado, bem falso às vezes (todos baianos), mas as qualidades do filme superam as falhas. E o filme me surpreendeu em seu lirismo. Nada de cenas chocantes, de frases bombásticas. EU ME LEMBRO é um exercício de memória do cineasta, revendo na infância tudo aquilo que formou seu pensamento. O filme, desta forma, gira muito em torno de referências sexuais (marcantes para o garoto do interior) e questionamentos sobre Deus. Acho bem suspeito uma psicanalista ficar tão incomodada com o começo do filme, pois é o momento em que as referências chulas a sexo aparecem com mais força. Eu não me analisava mais com essa mulher.
São muitas referências chulas, mas não são gratuitas. Numa das primeiras cenas do filme, o garotinho de seus 4 anos, chama a mãe de puta. Sem saber o que aquilosignifica. E leva um baita esporro do bruto pái, que sacode o menino no ar, fazendo o coitado se mijar nas calças. Poucas cenas depois, o garoto escuta um grupo de adultos decidindo como contar numa carta que um dos garotos já está sexualmente ativo. E tome-lhe linguagem chula. Ora, isso faz parte da formação da criança. Ele escuta adultos falando aquela linguagem e repete em casa diante de um pai extremamente repressor, a quem ele chega a desejar a morte. Na fase adulta da personagem, o sexo vai dando lugar a outras preocupações, mas o questionamento a Deus permanece forte.
O filme é belíssimo. Não posso deixar de dizer que dormi no final. Muito cansado do pique de trabalho, não agüentei a proximidade com as... 11 horas da noite!!!!! Quem diria...
No fim da sessão, tinha gente se debulhando de chorar. Eu perdi parte da última cena (em que o personagem central, numa viagem de cogumelo revê várias personagens de sua vida) e acordei com os letreiros e uma belíssima canção com uma voz que eu acho que era Caetano Veloso. Uma canção que eu não conhecia e não consegui descobrir o nome ainda, mas que termina com uma frase que achei também belíssima: "Eu nunca me esqueço de todas as pessoas que já fui".
ERRATINHA: O nome do genial média-metragem de Edgard não tem hífem, é SUPEROUTRO. E a frase que encerra a música de EU ME LEMBRO, que acabei de escutar no site do filme, é "Eu não me esqueço de ninguém que eu já fui". A música é de Tuzé de Abreu e a letra é de Caetano, que realmente canta e toca violão na canção homônima ao filme.
Escrito por Claudio às 13h06
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