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BRASIL, Sudeste, RIO DE JANEIRO, Homem, de 36 a 45 anos



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ducentésimo sexagésimo sexto dia - manhã de carnaval

Há três anos, numa manhã de carnaval, saí pelas ruas de Salvador, passando por ambulantes recolhendo suas mercadorias, bêbados remanescentes da folia, trios desmontados, garis.

A cabeça zonza de uma incomensurável tristeza. Passava por caminhões na rua e pensava: o que me impede? Por que continuo vivo?

Hoje é outra manhã de carnaval. Fui à cozinha, esquentei um lanche, e me veio à cabeça uma canção e uma sensação de felicidade. Chove em Salvador, mas dá vontade de cantar outra canção: "manhã, tão bonita manhã..."



Escrito por Claudio às 07h25
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ducentésimo sexagésimo quinto dia - saudade brau

Terça, 30 de janeiro. Margareth Menezes no Circo Voador, Lapa.

Era o terceiro e último ensaio de Margareth aqui no Rio neste verão. Eu tinha pensado em ir no anterior, mas tinha capítulo para escrever e fiquei em casa. Neste último, eu fui.

Saí de casa e encontrei amigos baianos para irmos juntos. Quando o show começou, à meia-noite, os amigos não entraram no meio do povo, ficaram na área descoberta, vendo o show de longe. Margareth começou com uma música que eu não lembro qual era e emendou com NOITE DOS MASCARADOS. Aproveitei a marchinha ainda leve para entrar no meio do povo. Logo de cara, encontrei Fabiana Mateddi, mais uma atriz baiana morando no Rio. Fabiana estava bem na frente de uma caixa de som, o som era muito alto e eu fui indo para o meio. Fiquei bem no meio, quase em frente ao palco. Gente por todos os lados, e eu sozinho.

Margareth então começou a cantar CHAME GENTE.

Naquele momento, eu me lembrei que não passaria o carnaval em Salvador, me lembrei de todos os desafios que (espero) devem surgir para mim neste ano, me lembrei de toda a tensão das últimas semanas e pulei feito desesperado. Eu não cantava a letra, eu urrava a letra, e a cada verso mais forte, eu simplesmente urrava depois. Eu tinha muita vontade de gritar, de botar pra fora toda a tensão, tudo o que estava reprimido. E chorei, chorei muito.

CHAME GENTE sempre mexe comigo. É indiscutivelmente um dos hinos do carnaval baiano e é linda. O verso "sagrado e profano, o baiano é carnaval" me arrepia. Nessa hora eu sou totalmente baiano e totalmente carnaval. Já cantei essa música com raiva numa quarta-feira de cinzas em que meu ex insistiu em ir comigo para o encontro de trios na Barra pra depois só fazer se queixar que estava com sono e reclamar que aquele povo não ia pra casa dormir. Gritei esse verso, "o baiano é carnaval" no ouvido dele. Dali, ele sumiu no meio do povo e acabou com a minha alegria naquela quarta-feira de cinzas.

Desta vez, CHAME GENTE era o meu grito de baiano no Rio, baiano com banzo, baiano sozinho no meio do povo, saudade da festa. Ao mesmo tempo, pensava que era o preço que eu tinha que pagar pelo sonho de fazer de verdade aquilo que eu fazia de brincadeira quando criança: escrever novelas. No meio do choro e dos gritos, a certeza de que eu quero, eu quero, eu quero!


Margareth emendou CHAME GENTE com CHÃO DA PRAÇA, a mesma que Caetano canta no show novo. E, depois, ATRÁS DO TRIO ELÉTRICO.

Fiquei ainda um tempo ali, até a participação de Ney Matogrosso e voltei para onde estava Fabiana. Lá encontrei mais artistas baianos morando no Rio. De repente, éramos um grupo grande. Os amigos com quem vim, nenhum artista, continuava lá, fora da área coberta. Certamente, era mais fresco, mas o bom daquele show era poder brincar com todo o calor. O show era, para mim, o meu único dia de carnaval baiano neste ano. Foi bom ficar junto dos baianos atores, foi bom ficar naquele grupo.

Em uma música, um dos rapazes do grupo começou a brincar de empurrar os outros com os braços fedchado sobre o peito, como prestes socar alguém, projetando os ombros para se bater com as outras pessoas, como se fosse um desses caras que saem em grupo no carnaval baiano e procuram briga no meio da multidão, aqueles caras que passam por você empurrando, agredindo de leve, à espera de algum impudente que reaja e comece a briga. Ele começou a brincar assim e logo o grupo todo parecia estar se batendo, eu inclusive. Acho que as pessoas em volta, à primeira vista, deveriam pensar que estava mesmo rolando uma briga. As pessoas abriram um buraco no meio da platéia como se estivesse rolando uma briga.

Naquele momento, eu pensei no significado dessa brincadeira. Era o único grupo que fazia isso. No resto do público, provavelmente a maioria carioca, ninguém brincava assim. É muito particular do baiano. É muito próprio de quem viveu o carnaval da Bahia saber se comportar como aqueles caras deseducados, agressivos, perigosos. É muito próprio transformar aquele comportamento agressivo numa brincadeira entre amigos, numa reprodução da Bahia no Rio de Janeiro. Eu me senti tanto na Bahia que, quando Zélia Duncan - outra participação da noite - agradeceu ao público do Rio, eu achei estranho.

Por uns instantes, eu estava na Bahia.


Neste sábado, Margareth falou que deve descansar no carnaval, que devemos escrever as escaletas antes e que ela vai pra serra. Já comprei a minha passagem, chego no domingo em Salvador.



Escrito por Claudio às 05h20
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