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ducentésimo octagésimo primeiro dia - de corpos e almas
Comecei, pela quarta vez, a ler A ALMA IMORAL. Pra quem não sabe, é o livro de um rabino chamado Nilton Bonder, que ganhei de natal de uma amiga que tinha visto o espetáculo homônimo e ficara encantada.
Indo pra Salvador, no natal, comecei a ler no avião, mas estava tão cansado que dormi quase que o vôo todo. No carnaval, a mesma cena se repetiu. E entre um e outro, às voltas com a novela, eu nem toquei no livro. Tentei novamente em outra viagem e cheguei ao fim da introdução. Mas, mais uma vez, deixei o livro de lado até que, na sexta antes da viagem a São Paulo, assisti à encenação. A atriz, Clarice Niskier, pinça momentos importantes do livro e diz em cena. Não é uma peça, não é um drama propriamente dizendo. Mas é envolvente, instigante e encantador. E é claro que, no dia seguinte, recomecei a ler o livro. Dessa vez, apesar de todo o cansaço no avião, depois de horas esperando, avancei bastante na leitura.
No livro, o rabino fala muito em "corpo" e "alma", e essa última semana foi também marcada por essas duas palavras.
CORPO: Fomos na sexta-feira à exposição CORPO HUMANO, na Oca do Ibirapuera. Corpos humanos verdadeiros (todos chineses), preservados com uma técnica moderna, que faz com que o que vemos seja o mais próximo de um corpo, digamos, fresco. Não vou dizer que achei bonito. Os músculos cortados e expostos lembram bifes crus. A exposição inteira nos lembra sempre: você é um animal. Mas tem uma parte absolutamente fascinante: o sistema circulatório. Eles conseguiram, com a tal técnica, preservar somente os vasos sanguíneos num corpo. É impressionante ver a distribuição dos vasos pelo corpo inteiro. É lindo. ALMA: Um dia antes, fomos ao Museu da Língua Portuguesa pra vermos a exposição sobre Clarice Lispector.
CORPO: Muito, muito frio em São Paulo. Tive que comprar ceroulas. E guarda-chuva! E cheguei a usar 4 casacos simultaneamente. O frio foi intenso até a nossa partida. E ainda tivemos que ficar uma hora numa fila, do lado de fora do aeroporto, porque a nossa companhia não tinha guichê prórpio em Guarulhos (o vôo ia sair de Congonhas, mas foi transferido). ALMA: Era verdadeiramente um frio de gelar a alma. Não fazia tanto frio desde 1991. E eu acho que eu peguei esse frio de 91 lá em São Paulo... O tempo voa. E o nosso avião, graças a Deus, também.
CORPO: Comida. Tivemos algumas experiências ruins, mas foi muito bom ter comido no Thai Gardens, no Mestiço (como sempre), no café V. da Livraria Cultura (que pãozinho de queijo maravilhoso) e no Gopala Asian Flavors. ALMA: A pequena lição do chef do Gopala Asian Flavors sobre a comida.
CORPO: Artur tirou um quisto enorme das costas. Estamos em Vitória da Conquista (chegamos no domingo). A irmã dele, Joane, cirurgiã, acompanhou a cirurgia. Parece estar tudo bem. Ficamos só nós dois esta noite, na casa dela, porque ela está de plantão. Agora há pouco, fui ajudar Artur a tirar a camisa e vi que estava escorrendo sanngue do curativo. Pelo telefone, Joane me deu instruções do que fazer. Depois, botei Artur pra dormir, lavei a camisa de sangue (a água está gelada, Conquista também é frio pra caralho!!!), e estou esperando dar quatro e meia pra dar o antibiótico que ele está tomando. ALMA: Desde que eu cheguei aqui me deu uma tristeeeeeeza... Quero calor!
Escrito por Claudio às 02h40
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ducentésimo octagésimo dia - Artur e o Cramulhão
Artur está de férias. E, como todas as pessoas que entram em férias, Artur não deixou de ir ao trabalho. Nem um dia sequer.
Mas neste sábado, mal influenciado por mim, que comprei uma passagem para São Paulo no nome dele, Artur rumou ao Aeroporto Internacional Lulu Magalhães, em Salvador. Talvez por ter concordado em ficar uma semana das férias longe do trabalho, talvez pela audácia de querer viajar bem no dia do enterro do Cabeça Branca - enquanto meia Bahia chorava e a outra ria -, talvez pelas duas coisas, Artur foi castigado. Castigo divino, com direito a intervenção do Didi. Não o Renato Aragão, mas o Diabo, o Capiroto, o Senhor das Trevas, que atendeu a um pedido de Deus e foi perturbar Artur no seu dia de viagem.
Pra preparar o espírito da vítima espírita, Didi (apelido carinhosamente dado por sua eterna noiva Naja, a cobra) resolveu dar sinais da sua existência. Ou melhor, resolveu dar um sinal: seu número estratégicamente estampado na etiqueta de preço do pacote de lenços umedecidos na farmácia da rodoviária, digo, do aeroporto.
Como bom discípulo de Paris-Hilton-antes-de-ser-presa, Artur nem olhou pra etiqueta com o preço. Simplesmente pegou o pacote e foi pro caixa. No caixa foi que ele percebeu a marca do Chifrudo estampada na tela indicando o total a ser pago: R$ 6,66.
Como bom discípulo de Priscila Capricci, Artur deveria deveria ter levado a sério o sinal, mas preferiu brincar e bradou: "Tá amarrado e repreendido!", causando espanto e furor na moça do caixa, discípula de Gretchen, a rebolativa cantora do grande hit "Jesus é rei!" ou "Melô do Piripiri". A moça viu o número do Demônio na tela e aí foi ela quem bradou, porém de todo o coração, "Tá amarrado e repreendido!" Como a fé da moça nas mágicas palavras era genuína, ela cumpriu normalmente seu dia de trabalho e voltou pra casa feliz por ter conseguido se livrar do mal. Já Artur, que zombou do poder daquelas palavras, teve seu castigo: vôo atrasado.
O castigo de Artur repercutiu no Rio de Janeiro e o meu vôo também atrasou.
Deveríamos ambos chegarmos em São Paulo ao meio dia. Mas o mau tempo em Porto Alegre e um problema nos equipamentos em Belém fizeram com que os vôos em todo o Brasil ficassem atrasados. Com a visão nublada pela lágrimas por ter que ficar uma semana de férias longe do trabalho, Artur só foi perceber que aquele preço daqueles lenços umedecidos tinham sido um sinal tarde demais: já estava havia horas esperando pelo vôo que, finalmente chegou. Às cinco e meia da tarde, Artur chegava a São Paulo, em Guarulhos. A essa hora, estava eu prestes a finalmente embarcar também. Cheguei em São Paulo às sete e meia da noite, mas como Artur estava me esperando no aeroporto, só pra aumentar o castigo dele, as malas chegaram bem depois às esteiras e só consegui sair com a minha mala de roupas às oito e quinze. Tínhamos dois ingressos para assistirmos uma peça às nove.
Fomos rapidamente para o carro do meu irmão e lá fomos nós rumo ao teatro. Quando meu amigo (que estava na porta do teatro com os ingressos na mão) me ligou e disse que dois outros amigos estavam lá e não tinham ingressos, achei mais prudente desistir do teatro. Fomos com meu irmão, minha cunhada e meu sobrinho mais velho para um rodízio de comida japonesa. Lá, mais espera, restaurante lotado. Quando finalmente sentamos e comemos, parecia até que a maldição tinha acabado. Qual o quê! Primeiro que, no dia seguinte, Artur amanheceu com sintomas de intoxicação alimentar. Segundo que, já alimentados, fomos para o hotel onde sempre nos hospedamos aqui em São Paulo e... não tinha vaga.
Circulamos vários outros hotéis e não tinha vaga. Até que encontramos uma vaga no Tulip Inn (onde fiquei com minha mãe e meus irmãos na época em que minha avó faleceu). Como o preço não era muito atraente, resolvemos que valia a pena mais uma tentativa em outro hotel perto. Fomos pro outro hotel. Antes de Artur (que era quem descia sempre pra perguntar) voltar com a resposta, já sabíamos que não ia rolar. No carro ao lado, uma garota esperava e, quando Artur entrou no hotel, um rapaz com a cara desamparada saía e avisava à moça do carro que nada feito.
O rapaz entrou no carro dele e, no nosso, nós comentávamos: eles vão procurar no Tulip Inn! E lá vinha Artur com a cara triste, andando a passos lentos pelo desânimo, e o rapaz ligando o carro. Todos no nosso carro gritam pra Artur se apressar, mas tentando não deixar claro pro casalzinho que a gente sabia onde tinha uma vaga! Artur, desanimado, parecia ainda mais lento. Nem bem ele entrou, meu irmão arrancou com o carro e conseguiu sair na frente do rapazinho.
Quando voltamos para a frente do Tulip Inn, já havia outro carro - branco - parado, provavelmente pegando a nossa vaga. No carro branco, o sinal irônico do Cramulhão. A placa do carro era 6660. Estava ali a assinatura da Besta-fera, como que rindo da gente.
Mesmo assim, lá foi Artur de novo para a portaria. Nós no carro, orando silenciosamente, pra Deus ter piedade do nosso querido irmão que ousou viajar a passeio nas férias. E Deus teve: havia várias vagas. Mas, pra tudo não terminar sem susto, meu cartão de débito foi recusado. O cartão da outra conta também. Só no terceiro cartão foi que conseguimos pagar a diária e subimos pra um merecido descanso... e uma boa hora de paraíso.
Escrito por Claudio às 02h16
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ducentésimo septuagésimo nono dia - após longo e tenebroso inverno...
Estamos no dia 4 de julho e junho foi embora sem que eu escrevesse nada no blog.
Um pouco de melancolia, um pouco de ansiedade, um pouco de preguiça, e nada de querer escrever.
Estou há quase um mês em Salvador e deveria - poderia - estar aproveitando o tempo pra escrever coisas que querem que eu escreva, mas estou resistindo. Tem coisas que eu quero escrever, mas também estou resistindo. Pra completar, a pensão de Tia Celina tá cheia, com um hóspede ocupando o quarto do computador. Pra ficar aqui de madrugada, tenho que pedir pro hóspede dormir na sala. Não é de bom tom.
Assim, aproveitei pra ver séries que comprei os boxes, mas não tinha visto ainda. OZ, GREY'S ANATHOMY, TWIN PEAKS. Terminei esta tarde de ver a segunda e última temporada de TWIN PEAKS. Não dá pra fugir do lugar comum: estraaaanha...
Hoje, despachei o hóspede pra sala pra tentar escrever uma sinopse pra um espetáculo. Mas estou aqui gravando Clara Nunes e escrevendo no blog. Preguiiiiça...
Escrito por Claudio às 02h27
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