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BRASIL, Sudeste, RIO DE JANEIRO, Homem, de 36 a 45 anos



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ducentésimo octagésimo sétimo dia - senhas

Às vezes a cabeça funciona melhor na exaustão.

Há dois meses, terminei uma peça nova, em parceria com Margareth. Na peça tem um monólogo de um personagem (a peça foi escrita de uma forma bem interessante: eram duas personagens, um homem e uma mulher, e eu escrevia as falas do homem e Margareth, as da mulher, e as cenas iam então sendo construídas sem que um soubesse o que o outro ia escrever e tendo que responder ao estímulo e à provocação do outro; era uma escrita improvisada). Continuando, na peça, tem esse monólogo do Rodrigo (o personagem que eu escrevi), que fiz bem inspirado e todo mundo se emocionava. Havia, porém, dois pequenos problemas. Um deles, eu já sabia como resolver. O outro me incomodava, mas eu nunca tinha parado pra tentar resolver. Na verdade, não parei pra nada, nem pra re-escrever o que eu já sabia como ia re-escrever. Pensava nessa pequena mudança com preguiça.

Nesta sexta, eu fiz a prova de seleção pro mestrado em Letras. Sim, fiz de novo. Passei em 2004, mas como não cursei nenhum semestre, perdi a vaga e tive que me submeter às provas novamente. Passei os últimos dias enfurnado em casa quase que o tempo todo, estudando. A prova era às nove da manhã e coloquei o despertador pras sete e meia. Me deitei logo depois da uma da manhã e... não dormi.

Rolei na cama, vim pro computador, joguei no msn (sou viciado em jogos...), e voltei a me deitar quase quatro. Continuei fritando na cama. O sono resistia a vir e, nos momentos em que ele tentava chegar, o ronco de Artur me assustava. Claro que ele tava roncando como todas as noites, mas ontem parecia mais alto do que nunca. Às cinco, peguei o meu colchão e vim dormir no quarto do computador. Todas as portas fechadas, o sono, leve, veio. (Pra vocês verem como são as coisas. Quinta foi a segunda vez que eu assisti a um capítulo de DUAS CARAS. E a minha cabeça tava tão cheia de teorias e contra-teorias que não é que eu acabei sonhando com a novela o tempo todo? E justo com Marília Gabriela! Ou melhor, com a Dona Guigui.)

Acordei às sete e trinta e cinco, me arrumei e fui fazer a prova. Foi horrível, como toda seleção. Você fica duas horas respondendo a primeira questão e, quando parte pra segunda, na qual você quer dizer um monte de coisas, alguém avisa: "vocês só têm mais uma hora".  Você já começa a correr. Quando vem o aviso de que falta meia-hora, a mão começa a paralisar, as letras viram garranchos, os pensamentos não se conectam mais, você percebe que ainda nem chegou no tema central da questão e sua resposta fica parecendo uma redação de quinta série. 

Saímos da prova tão desorientados, eu e George (que também concorre à vaga), que fomos desanuviar a cabeça na casa de Celso, vendo UGLY BETTY. De lá, fui ver meus pais no shopping, passei na médica pra ela ver meu pinto (que coisa bizarra! a herpes estourou, dessa vez na glande) e comecei a noite na exposição de uma prima de minha mãe que está se formando em Belas Artes. Vim pra casa, pensando em descansar, mas eis que a Feira da paróquia, no terreno aqui ao lado, havia começado. Rolava um show, o maior cheiro de churrasquinho invadindo o apartamento, e eu acabei assistindo a O SISTEMA. Depois, vim ver e-mails, fucei o orkut, li blogs que nunca mais tinha lido por causa da preparação para a prova e, finalmente, resolvi tomar banho pra dormir. Como eu sempre tomo banho escutando música, fui escolher o que colocar, e me veio na cabeça MENTIRAS, de Adriana Calcanhoto (na época, ela usava um T só). MENTIRAS é aquela "Nada ficou no lugar..."

Botei o disco e, como o dvd player (meu amplificador tá quebrado e tô ouvindo música na tevê) já toca automaticamente a primeira música, começou a tocar SENHAS, que dá título ao disco. E, passando o fio dental e escovando os dentes, que resolvi fazer antes do banho, SENHAS me deu a senha. Não somente a canção, mas o disco todo. O conceito do disco e algumas letras que ali estão. As canções iam tocando e eu chapando. Deixei o banho de lado e fiquei ouvindo e pensando. Pensei em tudo o que eu quis escrever e não escrevi na prova. Pensei no que eu queria escrever no monólogo da peça, mas que não tinha descoberto ainda. "O meu amor pelas misérias me leva, me trouxe, roça o que interessa e fez de mim alguém que eu sou hoje". Onde tava o alguém que eu sou hoje, onde tava o que me interessava naquele monólogo?

O que me interessava tava vindo à cabeça, mas eu sabia que precisava dormir e pensava e deixar tudo pra amanhã. Mas amanhã a casa vai estar cheia, amanhã talvez não tenha a mesma premência de hoje, e as palaras ditaram que queriam sair.

O disco terminou, "Lanço o meu olhar sobre o Brasil e não entendo nada", botei pra repetir e liguei o computador. Abri o arquivo da peça, fui no monólogo e fiz o trabalho. Agora as coisas estão ali.

E como a cabeça não parou, ainda não tomei o banho.



Escrito por Claudio às 02h23
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ducentésimo octagésimo sexto dia - carvalho

Fiquei sabendo no começo da tarde que Vanderlei tinha morrido. Vanderlei era hiv+. Mas morreu do coração.

Quatro pessoas me deram a notícia da morte dele. Quatro pessoas, separadamente. Das quatro, três começaram a rir. É engraçado ser hiv+ e não morrer de aids.

Vanderlei assumiu publicamente que tinha o hiv há alguns anos, num dia 1º de dezembro. Eu me lembro que eu soube disso através de Celso (o único que me deu a notícia da morte de Vanderlei sem rir), na entrada para a platéia no antigo Teatro Vila Velha, bem antes da reforma.

Eu não tinha muito contato com Vanderlei até então, e tive bem pouco depois. (Nem sei se o "Vanderlei" dele era assim mesmo que se escrevia.) Ele fez a assessoria de imprensa de VINGANÇA na primeira (e totalmente desprovida de grana) temporada. E foi meu aluno na Sitorne em pouquíssimas aulas (desistiu logo depois do curso). Sem contar que foi na casa dele, numa festa, que rolou um primeiro beijo que resultou em namoro nos idos de 89...

Enfim, estive muito pouco com Vanderlei, mas teve uma noite que me fez ter carinho por ele desde então. É que, além de jornalista, Vandelei inventou de ser cantor. E, no único show dele que eu fui, eu chorei muito, chorei a alma. O repertório me tocou profundamente e, no meio das canções, havia uma versão de LA MIA STORIA TRA LE DITA (canção de Gianluca Grignani, que eu devia conhecer das rádios, mas que me chamou a atenção quando eu escutei tocando numa barraca de praia na Boca do Rio, numa caminhada matinal, há muitos anos). Era uma versão de Paulo Sérgio Valle, à qual eu nunca tinha dado atenção, talvez por um preconceito com versões, talvez por um preconceito com José Augusto, que era quem cantava. Mas, no show, aquela letra me tocou profundamente e fiquei perplexo. Depois do show, fui jantar com Vanderlei e os músicos na Cheiro de Pizza, eu falei da minha emoção com o show e, particularmente, com aquela música. E ele me disse que pretendia gravar o show e que me daria uma cópia da música quando o fizesse. E toda vez que eu o encontrava, eu cobrava a gravação. (Ele finalmente gravou o disco, anos depois, mas nunca mais o encontrei pra "cobrar" a minha cópia.)

Não fui ao velório e provavelmente não irei à cremação, que será agora pela manhã. Mas foi inevitável pensar nele durante o dia. Sempre com carinho.

Pra completar, uma das poucas vezes em que conversei mesmo com ele, além do dia do show, foi em outro show, de Simone, na Concha Acústica. Eu nunca tinha visto um show dela, e havia muito tempo que ela não fazia show em Salvador. E encontrei Vanderlei lá, empolgadíssimo e emocionado, me contando o quanto ele adorava aquela mulher.

Algumas horas atrás, ligo a tevê, e lá estava ela, Simone, cantando num especial da Globo em homenagem a Gonzaguinha. Cantava SANGRANDO. E cantava lindamente. Fiquei vendo o show e não pude deixar de pensar pra ele: puxa, Vanderlei, olha o que você foi perder.

Mas agora eu penso que ele não perdeu. Ele também viu.

 



Escrito por Claudio às 04h47
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